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Crise das Santas Casas e o custeio da saúde

Sem categoria - 15.08.14

A crise na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo – que, há três semanas, interrompeu os atendimentos de urgência e emergência – trouxe à tona e deu maior visibilidade à discussão sobre o financiamento da saúde no país. Já era tempo. Somente no interior da Bahia, cerca de quarenta Santas Casas deixaram de existir nos últimos dez anos.

Pesquisa produzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo revela que a união está investindo em saúde, a cada ano, cada vez menos do que estados e municípios. Em 2000, o governo federal era responsável por 59,8% do custeio da saúde pública; em 2011, esse índice já havia caído para 44,7%. No mesmo período, a participação dos estados saltou de 18,5% para 25,7% e a dos municípios, de 21,7% para 29,6%.

Em meio à crise generalizada das Santas Casas e dos hospitais filantrópicos, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia – instituição mantenedora do Hospital Santa Izabel desde 1549 – busca saídas para contornar as inevitáveis dificuldades financeiras e pro-duzir o melhor resultado possível em benefício da população. Com indicadores de desempenho bem superiores aos dos hospitais públicos, o Santa Izabel é procurado por pacientes de toda a Bahia e até de outros estados, em razão da excelência dos seus serviços assistenciais.

Com estrutura de 525 leitos, sendo 85 de UTI, o Hospital Santa Izabel realiza anualmente 160 mil consultas ambulatoriais, 14 mil cirurgias, 230 mil procedimentos e 1,4 milhão de exames. Ao SUS destina 225 lei-tos, sendo 25 de UTI. Mais de dois mil pa-cientes circulam, diariamente, nas diversas áreas e unidades que integram o complexo hospitalar.

O Santa Izabel é um dos dois hospitais que realizam o maior número de cirurgias cardíacas na Bahia. Detém a maior produção de procedimentos em cardiologia intervencionista e uma das maiores produções de procedimentos de alta complexidade, especificamente em ortopedia, além de oferecer o segundo maior centro de cirurgias oncológicas do estado.

De forma paralela e complementar à assistência, o Santa Izabel realiza pesquisas que contribuem para o avanço da saúde e auxilia na formação de renomados quadros da medicina brasileira.

O Hospital Santa Izabel recebe do SUS cerca de R$ 5 milhões por mês, enquanto, para manter todos os serviços por ele demandados – sobretudo os de alta complexidade, em cardiologia, ortopedia, neurologia e oncologia – deveria receber pelo menos R$ 8 milhões. A diferença é penosamente coberta com o resultado obtido no atendimento à saúde suplementar e a particulares.

Essa situação compromete a capacidade que o Santa Izabel precisaria ter para in-vestir na manutenção e elevação dos seus padrões de qualidade, prejudicando seu desempenho no curto prazo e dificultando a sua sustentabilidade no longo prazo.

Saúde financeira é requisito básico e in-dispensável a qualquer organização, mesmo as que não visam ao lucro. A situação crítica atualmente vivida pelos hospitais filantrópicos e pelas Santas Casas mostra que o modelo brasileiro de custeio da saúde pública através do SUS precisa ser repaginado com criatividade, inteligência e, principalmente, realismo.

Fonte: Jornal A Tarde